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Corpos humanos não deveriam explodir no espaço interplanetário quando há descompressão?

Professor Lang, me tira uma dúvida: no filme GRAVIDADE, há algumas coisas que não vão bem com a Física, por exemplo, os corpos mortos, no espaço, não deveriam estourar por sua pressão interna?

Desde já, obrigado.

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

De fato no filme GRAVIDADE “há algumas coisas que não vão bem com a Física“.

Entretanto os corpos humanos NÃO terem explodido quando houve despressurização da nave e/ou dos trajes espaciais está ABSOLUTAMENTE CORRETO. Até poderia haver rompimento dos pulmões caso alguém conseguisse reter o ar dentro deles mas nunca ocorreria uma explosão hollywodiana do corpo humano. Em 1965 LeBlanc, estava testando trajes espaciais nas câmaras de vácuo da NASA quando um defeito produziu despressurização. LeBlanc ficou inconsciente em 15 segundos mas foi resgatado a tempo de não sofrer danos sérios por hipóxia (falta de oxigênio).

É UM MITO A EXPLOSÃO DE CORPOS HUMANOS POR SUBITAMENTE HAVER UM REDUÇÃO NA PRESSÃO EXTERNA EM 1 ATM! Quando disse isso aos meus alunos imediatamente um se manifestou assim: “Mas professor os fluidos corporais vão ferver pois a água ferve até na temperatura ambiente se a pressão é suficientemente baixa. E lá a pressão é nula!

Então analisemos um pouco melhor a situação. Comecemos por nos perguntar qual é a pressão interna ao astronauta. Se ele estiver em um ambiente pressurizado a 1 atm (suponho que a pressão no interior da EEI seja menor 1 atm assim como costuma ocorrer em cabines de aviões em grandes altitudes), a pressão dentro dos seus pulmões é muito aproximadamente 1 atm. No interior de alguns órgãos a pressão é um pouco superior à pressão externa (dentro das artérias pode ser cerca de 20% maior do que a pressão externa). A propósito vide Flatulência a bordo de um avião!,   Medindo, 5 dias depois do voo, a pressão na cabine do avião! e Refazendo a medida da pressão na cabine do avião, agora 8 dias após o voo!

Portanto, admitindo que a despressurização seja quase instantânea, como o ambiente externo ao astronauta baixa a sua pressão em 1 atm, a máxima diferença de pressão entre o interior e o exterior do corpo é 1 atm.

Então certamente escapam gases por todas as comunicações que levam de dentro do corpo para fora e a pressão rapidamente  cai e SOMENTE quando chegar a cerca 0,05 atm a água entra em ebulição (0,05 atm é a pressão de vapor saturado da água  na temperatura do corpo humano). E quando a água e outros fluidos corporais porventura ebulirem, NO MÁXIMO a pressão interna será mantida na pressão de vapor saturado da água a 37 graus C, aproximadamente 0,05 atm, sendo IMPOSSÍVEL ultrapassar esta pressão por simples vaporização de fluidos corporais.

Portanto, dado que para explodir um corpo humano se necessita uma diferença de pressão de MUITAS atmosferas lá de dentro para fora, É IMPOSSÍVEL haver a explosão recorrente em filmes sobre aventuras espaciais.

Se o corpo humano explodisse por despressurização da ordem de 1 atm então já teríamos notícias de muitas explosões em episódios de descompressão de cabines de aviões! Podem de fato haver “mini explosões” constrangedoras e fedorentas em tais descompressões em aviões conforme Flatulência a bordo de um avião!

O astronauta que for submetido à descompressão tal como acontecida em GRAVIDADE, em pouco tempo padece de HIPÓXIA e ANÓXIA (baixa pressão parcial de oxigênio e consequente falta de oxigenação dos tecidos) e morrerá asfixiado caso não seja socorrido a tempo.

Para maiores detalhes sobre o corpo humano submetido à baixa pressão vide O CORPO HUMANO NO ESPAÇO: DISTINGUINDO O FATO DA FICÇÃO.

Pergunta relacionada a esta:

O que acontece se alguém jogar um copo de água no vácuo do espaço?

A propósito do tema e por indicação do Prof. Alex Soares Vieira vale consultar  http://articles.adsabs.harvard.edu//full/1973NASSP3006…..P/0000001.000.html. Experimentos de descompressão com macacos e cachorros mostraram que muitos segundos após a descompressão ainda estavam conscientes. Portanto NÃO explodiram e puderam sobreviver quando o estado de anóxia era revertido.

Mais uma vez a incompreensão do que acontece de fato com a água submetida à baixas pressões decorre de que em nossos textos canônicos de Física Geral (de ensino médio e superior) o tema da VAPORIZAÇÃO é, de um modo geral, extremamente mal tratado. A propósito vide o artigo Um tema negligenciado em textos de Física Geral: a vaporização da água.

“Docendo discimus.” (Sêneca)

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