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A mente pode transformar o corpo e curar tudo?

Gostaria de saber se as afirmações abaixo, que constam no vídeo “Sua Mente pode Transformar o seu Corpo e Curar Tudo“, tem de fato apoio na Física?

  • O corpo é uma projeção holográfica da consciência. Por mecanismos da física quântica podemos influenciar o holograma e ter controle do corpo.
  • O elétron decidiu agir de certa maneira porque estava sendo observado. O mundo quântico espera que tomemos uma decisão para sabermos como agir.
  • Campo energético humano interage com o campo quântico.
  • A realidade oscila entre matéria e onda sempre. Metade do tempo a gente não tem forma. O corpo se rematerializa 1044 vezes/s.
Respondido por: Prof. Paulo Henrique Souto Ribeiro (UFSC)

Trata-se de um vídeo com um pouco mais de 26 minutos de duração que afirma que cada pessoa pode controlar a própria saúde e curar qualquer doença desde que tenha “certeza absoluta de que será curado”. O vídeo tenta embasar esta afirmação misturando alguns conceitos de mecânica quântica e depoimentos pessoais (evidências anedóticas) para confundir e sensibilizar o espectador incauto.

Para que uma tese científica tenha credibilidade é necessário, no mínimo, que os pressupostos teóricos não colidam frontalmente com conceitos bem estabelecidos em algum campo de conhecimento e que as hipóteses sejam testadas experimentalmente por pesquisadores de forma independente. Mas nada disso está presente no vídeo: a vinculação entre a saúde da pessoa e a física quântica é feita de maneira espúria e descompromissada. Não há apresentação de evidências teóricas ou experimentais confiáveis para suportar as afirmações do vídeo.

O vídeo começa afirmando que “o corpo é uma projeção holográfica da consciência” e que “por mecanismos da física quântica podemos influenciar o holograma e ter controle do corpo”. A ideia do que é um holograma pode ser visualizada através, por exemplo, de experimentos caseiros com o celular. Neste exemplo, a partir de uma figura bidimensional (dimensão 2) que aparece em uma tela de celular é possível criar uma figura tridimensional (dimensão 3).

Basicamente, holografia é o nome que se dá a um efeito que acontece em uma certa dimensão, mas que foi originado em dimensões menores (uma figura em 3D cuja origem é a imagem do celular em 2D, como mostrou o exemplo acima). Há dezenas de livros didáticos que explicam o que é holograma e holografia (veja um exemplo aqui). Note, portanto, que o termo “projeção holográfica da consciência” é somente um amontoado de palavras que não faz sentido na física.

Além da afirmação errada de que o corpo é uma projeção da consciência e que poderia ser moldado a todo tempo, o vídeo vai além ao dizer mais à frente que a “realidade oscila entre matéria e onda sempre”, “metade do tempo a gente não tem forma” e que “o corpo se rematerializa 1044 vezes/s”.

O corpo humano é composto predominantemente por compostos químicos chamados de estáveis. Essa estabilidade implica que os elementos químicos não somem ou se transformam (a palavra técnica é decaem) espontaneamente ou se aniquilam mutuamente transformando-se, por exemplo, em fótons ou partículas.  A transformação do corpo em algum tipo de onda e posterior retorno à forma humana pressupõe ainda um contorcionismo intelectual para assumir que essas ondas ficam contidas em uma região limitada do espaço e depois se “materializam” novamente sem perder nenhuma informação.

O processo de “materialização/desmaterialização” mencionado do vídeo, além de transgredir explicitamente um dos pilares da ciência que é a lei da conservação de energia, ainda crava uma frequência de oscilação de cerca de 1 kHz. Uma oscilação de 1kHz envolvendo matéria provavelmente produziria uma onda sonora audível e poderia ser facilmente medida. A afirmação envolvendo a “oscilação da realidade” contida no vídeo não encontra respaldo em trabalhos científicos teóricos e experimentais publicados em revistas respeitadas pela comunidade de física.

É interessante observar que o vídeo analisado apresenta uma inserção de um outro vídeo encontrado no Youtube: ”Dr. Quantum – Double Slit experiment”. Trata-se de um vídeo didático sobre a experiência de fenda dupla e narrado originalmente em inglês. Um áudio em português é sobreposto ao áudio original e essencialmente faz uma tradução para o português. Vamos entender o experimento de fenda dupla e a motivação que levou à sua concepção.

O experimento da fenda dupla foi concebido e realizado pelo cientista britânico Thomas Young em 1801 e teve como motivação demonstrar que a luz se comportava como uma onda. Por causa do experimento da decomposição da luz por um prisma realizada por Isaac Newton em 1666, aceitava-se na época que a luz era constituída de partículas ou corpúsculos.

Mais tarde, em 1808, o cientista francês Jean Fresnel ganharia um prêmio da academia francesa de ciências pela sua teoria ondulatória da luz e que foi confirmada pelo cientista francês François Arago, que realizou um formidável experimento para observar o chamado ponto brilhante de Poisson: um ponto luminoso que se forma atrás de um obstáculo opaco devido à difração da luz. Estes experimentos ajudaram a consolidar a ideia de que a luz era uma onda.

Em 1924, o cientista francês Louis de Broglie apresentou a hipótese de que partículas com massa também poderiam se comportar como ondas. Esta hipótese foi verificada experimentalmente pelos cientistas norte-americanos Clinton Davisson e Lester Germer em 1926.

Esses e outros experimentos serviram de base para o desenvolvimento da teoria quântica que é capaz de conciliar ambos comportamentos, ondulatório e corpuscular, na conhecida dualidade onda-partícula.

A experiência de fenda dupla discutida no vídeo ”Dr. Quantum – Double Slit experiment” exemplifica de forma didática a dualidade onda-partícula e menciona o exemplo de comportamento ondulatório de elétrons. Desde 1896, quando o cientista britânico Joseph Thomson realizou um experimento para medir a razão entre a carga e a massa do elétron, associou-se uma imagem de partícula ao elétron.

Entretanto, o elétron também apresenta um comportamento ondulatório. O elétron tem um comprimento de onda associado, chamado comprimento de onda de de Broglie, extremamente pequeno. Este comprimento é 1000 vezes menor do que o comprimento de onda de um fóton com a mesma energia – quanto maior a massa do objeto, menor o comprimento de onda de de Broglie.

Por exemplo, o comprimento de onda de de Broglie associado a uma bola de 1 kg de massa e velocidade de 1 m/s é da ordem de 10-36 m, um número tão pequeno que torna muito improvável atribuir qualquer efeito relevante a ele. Para um ser humano o comprimento de onda de de Broglie é ainda menor. Isto mostra somente que a tentativa de ligar o ser humano ao problema da dualidade onda-partícula só pode levar a situações absurdas e desconectadas da realidade.

O vídeo tenta ainda sensibilizar o ouvinte através de evidências anedóticas, sem valor nenhum para a ciência, com a inserção de depoimentos de cura. Em outro momento, o vídeo tenta invocar uma suposta consciência do elétron através da afirmação ”o elétron decidiu agir de certa maneira porque estava sendo observado” e que “o mundo quântico espera que tomemos uma decisão para sabermos como agir”.

Talvez o panpsiquismo, a ideia de que a consciência é algo onipresente, tenha algum lugar na filosofia, mas não encontra respaldo na Física. Há décadas são realizados experimentos sérios para confrontar a teoria quântica com as chamadas teorias de variáveis ocultas locais. Todos os resultados experimentais, sem exceção, mostram que a teoria quântica está correta e que a escolha das bases de medição não produz nenhuma alteração no resultado dos experimentos (um experimento recente sobre este assunto pode ser encontrado aqui). As escolhas do experimentador não afetam as correlações quânticas.

Finalmente, em algum trecho o vídeo menciona que existe um “campo energético humano interagindo com o campo quântico”. Não há nenhum trabalho científico definindo e medindo experimentalmente o que seria um ”campo energético humano”. Mesmo o termo ”campo quântico” precisa ser especificado com mais cuidado para que possa fazer algum sentido do ponto de vista científico.

Conclusão

As afirmações que relacionam a física quântica com a saúde no vídeo “Sua Mente pode Transformar o seu Corpo e Curar Tudo” são desprovidas de qualquer comprovação experimental ou embasamento teórico. O vídeo utiliza o experimento de fenda dupla para se fantasiar de ciência e conduzir o espectador por afirmações que não possuem nenhum significado na física. Trata-se de uma apropriação indevida da física quântica.


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