• Heliocentrismo versus Terra Plana


  • Professor Lang


    Tenho sido leitor assíduo das suas postagens combatendo a Terra Plana e também assisti sua palestra no youtube. Parabéns pela sua persistência e didática! Tenho observado que os terra-chatos afirmam que o heliocentrismo foi proposto por Copérnico a mando do papado através dos jesuítas. Dizem também que os heliocentristas são adoradores do Sol e que antes de Copérnico os geocentristas eram terraplanistas. O sr. poderia comentar sobre estas afirmações pois pelo pouco que sei há muitas mentiras aí. Muito obrigado!







    As afirmações dos terra-chatos sobre o heliocentrismo possuem um grão de verdade perdido entre muita ignorância e/ou mentiras deslavadas.



    Vou começar com o grão de verdade. A retomada da hipótese heliostática  - melhor do que chamá-la de heliocêntrica conforme explico em Copérnico NÃO aboliu e usou epiciclos!!! -  por Nicolau Copérnico (1473 - 1541) está associada com o ressurgimento na Europa do neoplatonismo conforme discuto no artigo de 2002, intitulado A Premissa Metafísica da Revolução Copernicana, disponível no ResearchGate.



    No início do Livro I da "Revolução dos Orbes Celestes" Copérnico explicita a razão de admitir estar o Sol (quase) no centro do universo ao invés da Terra:



    No meio de todos os assentos, o Sol está no trono. Neste belíssimo templo poderíamos nós colocar esta luminária noutra posição melhor de onde ela iluminasse tudo ao mesmo tempo? Chamaram-lhe corretamente a Lâmpada, o Mente, o Governador do Universo; Hermes Trimegisto chama-lhe o Deus Visível, a Electra de Sófocles chama-lhe O que vê tudo. Assim, o Sol senta-se como num trono real governando os seus filhos, os planetas que giram à volta dele.



    Desta forma fica caracterizada a inspiração estética e metafísica que possibilitou a revolução iniciada por Copérnico e somente consolidada no século XVII. O seu livro foi impresso um pouco antes da sua morte em 1543. A hipótese copernicana do Sol estático e da Terra em movimento de translação e rotação possuia inúmeras objeções mecânicas e astronômicas - além das conhecidas objeções religiosas de católicos e protestantes -  que lentamente foram superadas ao longo de mais de um século. O artigo do Prof. Alexandre Medeiros (UFRPe) é uma ótima referência na abordagem de A invisibilidade dos pressupostos e das limitações da teoria copernicana.



    Trato especificamente das contribuições de Galileu (1564 - 1642) na superação das objeções à Teoria Copernicana, sejam observacionais a partir de suas investigações celestes com o telescópio iniciadas na primeira década do século XVII, sejam teóricas lançando os fundamentos de uma nova Mecânica, na palestra A Mensagem da Estrelas.



    A superação de alguns argumentos contra os movimentos da Terra tiveram que aguardar o advento da Mecânica de Isaac Newton (1643 - 1727). Destaco aqui a objeção relativa à possibilidade de centrifugação de corpos da superfície da Terra resolvida satifatoriamente por Newton. Os terraplanistas, analfabetos científicos, hoje retomam o velho tema, desconhecendo que tal centrifugação não pode acontecer conforme está explicado em Rotação da Terra e centrifugação.



    Desta forma percebe-se, que apesar da inspiração metafísica, o triunfo das ideias copernicanas deveu-se aos avanços observacionais/experimentais e teóricos subsequentes a Copérnico.



    A geometria da Terra era essencialmente a mesma, seja na velha concepção geocêntrica, seja na revolucionária concepção heliostática que Copérnico. A divergência entre ambas as concepções estava em ser ou a Terra ou o Sol estático. Na figura abaixo vemos a belíssima obra artístico-científica concebida em 1561 pelo matemático, cartógrafo e cosmólogo português Bartolomeu Velho (? – 1568), indicando que naquela época já se conhecia com muita fidedignidade a geografia de nosso planeta. Esta obra representa a integração da cosmologia geocentrista aristotélica com o cristianismo, sendo rica em detalhes quantitativos (sugere-se a inspeção da figura no arquivo em alta da resolução da  Wikipedia).



    bartolomeu_velho_1568




    Assim sendo os geocentristas contemporâneos a Copérnico, não tinham dúvidas sobre a esfericidade da Terra e portanto não eram terraplanistas.



    Atribuir ao papa, através dos jesuítas, a formulação da concepção copernicana é uma afirmação boçal, repleta de má-fé, típica dos fundamentalistas religiosos que tentam reviver a anacrônica e esdrúxula Terra Plana, concepção superada na Antiguidade Clássica. É por demais sabido que a Igreja Católica nos séculos XVI e XVII tratou duramente os defensores da nova concepção que tirava a Terra do centro do universo. São bem conhecidos os processos e as penas sofridas, por exemplo, Giordano Bruno (1548 -1600) e Galileu.



    Tanto o universo copernicano quanto o geocêntrico era fechado na última esfera:a esfera das estrelas. Esta última esfera estaria, de acordo com a figura de Bartolomeu Velho, trinta duas vezes mais distante do centro da Terra do que o Sol e este dezenove vezes mais afastado do centro do universo do que a Lua.  Portanto fica evidente que o geocentrismo na época de Copérnico absolutamente nada tem a ver com a Terra Plana coberta pelo Domo da Ignorância, onde o Sol e a Lua estão em órbitas PARALELAS à superfície da Terra e ambos a apenas alguns milhares de quilômetros sobre a Terra e por baixo do tal domo.



    Há muito tempo a concepção copernicana de que o Sol é a fonte de toda luz do universo  - explicitada na supracitada transcrição do texto de Copérnico, na qual a luz das estrelas são reflexos da luz solar - foi superada, bem como a posição central que o Sol ocupava.  Ou seja, a afirmação de que atualmente os cientistas sejam adoradores do Sol é apenas mais uma estupidez dos terraplanistas.



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    Vide a palestra realizada na UNISNOS em 31/05/2017: Sobre a forma da Terra


    Vide o artigo Sobre a forma da Terra



    "Docendo discimus." (Sêneca)


     





    Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/



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