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Sobre a (in)utilidade dos canhões antigranizo

Bom dia professores(as).

Em minha cidade estão instalados equipamentos chamados de canhões antigranizo que disparam contra as nuvens em caso de granizo para romper a precipitação de granizo.

Além de muito barulhentos, creio que isso afete a precipitação de chuva na região pois junto com o uso normalmente a chuva que cairia se dissipa criando uma escassez artificial de água.

Para os ricos que são proprietários isso é ótimo mas para a região de maneira geral é péssimo.

Sem comentar que geoengenharia que pode afetar de maneiras irreversíveis o clima da região.

Obviamente que a única maneira de manter o funcionamento  de um equipamento sequer homologado para funcionamento no Brasil, é um “abaixo assinado” organizado pelos interessados na região.

Gostaria da opinião dos professores e avanço em denúncias contra o uso do equipamento se possível.

Preciso manter-me anônimo pois todo tipo de retaliação pode acontecer.

Obrigado

Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - IF-UFRGS

O canhão antigranizo (canhão de ondas de choque) foi inventado no final do século XIX  com o objetivo de intervir na formação das pedras de granizo disparando ondas de choque contra as nuvens, supostamente diminuindo ou evitando estragos em plantações e habitações. Anteriormente tocavam os sinos nas igrejas e eram produzidos ruídos com instrumentos improvisados na vã esperança de afastar tempestades.

Atualmente as ondas de choque são produzidas no canhão pela combustão da mistura gasosa de acetileno (ou butano) com oxigênio. Ao atingirem a região de formação do granizo, interromperiam este processo resultando em pedras pequenas ou somente chuvas.

Uma objeção teórica ao suposto efeito do canhões está na produção natural de ondas de choque durante as tempestades pelas descargas atmosféricas. Os trovões, que se constituem em ondas de choque associadas aos raios, são muito mais intensas do que qualquer uma ocasionada por um canhão terrestre. Se as ondas de choque atmosféricas impedissem a formação de granizo de forma eficiente, esperar-se-ia que o próprio trovão suprimisse a formação de granizo com maior eficácia do que um canhão terrestre. No entanto, isso não ocorre, já que as tempestades com granizo também vem acompanhadas por trovões.

A história do uso desses canhões no início do século XX está contada  em detalhes no artigo History Repeated: The Forgotten Hail Cannons ot Europe.

Um viticultor austríaco chamado M. Albert Stiger realizou experiências em seu quintal (1895 e 1896), que culminaram na criação de um morteiro de carregamento pela boca apontando para cima. O dispositivo se assemelhava muito a um megafone vertical de grandes dimensões, feito de chapa metálica montada sobre um bloco de madeira.

Casale, em 1899, na Itália, sediou a primeira de quatro conferências sobre supressão de granizo, que apresentaram dezenas modelos diferentes de canhões e algumas poucas manifestações de ceticismo. Apesar de o entusiasmo se espalhar e os canhões surgirem por toda a Áustria, Itália, França, Espanha e Hungria, algumas autoridades começaram a notar resultados insatisfatórios. Os defensores mais radicais dos canhões antigranizo repetidamente atribuíam as falhas a disparos incorretos, atrasos nos disparos e posicionamento inadequado. 

Quando o quarto congresso internacional de supressão de granizo aconteceu em 1902, as autoridades já haviam concluído que a eficácia dos canhões não estava comprovada nem refutada. Em 1903, o governo italiano tomou a iniciativa e organizou um experimento de dois anos com 222 canhões.

O resultado desse experimento foi que as áreas de teste sofreram severamente com granizo da mesma forma que as áreas não protegidas. Então os canhões foram declarados publicamente um fracasso e, em poucos anos, foram praticamente abandonados. Em 1906 quando o experimento foi concluído, a maioria dos fazendeiros já havia vendido seus canhões inúteis como sucata.

A partir da segunda metade do século XX novamente a moda dos canhões reapareceu.

Em 2006 o artigo intitulado If cannons cannot fight hail, what else?  revisou um grande número de experimentos históricos que utilizaram a força bruta contra a formação de granizo, incluindo canhões de antigranizo e foguetes explosivos.  De acordo com os autores do artigo, “O uso de canhões ou foguetes explosivos é um desperdício de esforço e dinheiro”.

Mais recentemente, em 2024, o artigo intitulado Heavy Rainfall Events in Selected Geographic Regions of Mexico, Associated with Hail Cannons analisou quatro anos de dados de utilização de canhões no México e não encontrou nenhuma relação entre a operação de canhões antigranizo e a atenuação de eventos de chuva intensa.

Desta forma o uso de ondas de choque (produzidas por canhões ou foguetes) no combate ao granizo, além de sofrer objeções teóricas, tem se demonstrado como ineficientes em  diversos estudos científicos que visavam testar as alegadas capacidades de reduzir ou evitar granizo e chuvas intensas.

Apesar de esse método ter se mostrado totalmente inútil na proteção contra granizo, inclusive segundo a World Meteorological Organization (Organização Meteorológica Mundial) , ainda existem empresas que oferecem esses equipamentos aos agricultores.

Vale ler também Canhões antigranizo não funcionam e são um desperdício de dinheiro; entenda o porquê.

“Docendo discimus.” (Sêneca)

 


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